As pichagens e a “Causa das Mulheres” – por Maria Irene Ramalho

 

As pichagens e a “Causa das Mulheres”

por Maria Irene Ramalho

 

As pichagens anónimas que conspurcaram as paredes do CES surgiram em 2017-18. 2018 foi o ano do quadragésimo aniversário da fundação do CES e ano de grandes celebrações da instituição e de muitas homenagens ao seu Director. Especialistas de todo o mundo vieram a Coimbra prestar tributo ao CES e a quem o fundara num colóquio realizado no Auditório da Reitoria da Universidade de Coimbra em 7-10 de Novembro. Como disse na altura o jurista inglês, William Twining, infelizmente já falecido, não admira que, em momentos como os da celebração dos 40 anos do CES, estudantes se manifestem. Na altura, houve letreiros derrogatórios nas casas-de-banho do Auditório.

Mas, neste caso, há um momento de “feministas radicais” que é preciso ter em conta. O capítulo difamatório viria mais tarde a dar força a essas “feministas radicais”, preocupadas com a “Causa das Mulheres” para a destruição do “Patriarcado”, de que Boaventura de Sousa Santos, no auge do seu prestígio científico e intelectual, lhes terá parecido o símbolo perfeito. Tratava-se, como tão bem disse Isabel Allegro de Magalhães, de “voltear la tortilla, o que no caso significa substituir a dominação masculina sobre as mulheres pela dominação feminina sobre os homens, em vez da procura de real paridade entre os sexos”.

(https://aviagemdosargonautas.net/2025/03/05/ainda-o-ces-de-coimbra-por-isabel-allegro-de-magalhaes/).

O que mais falta ainda saber é que poderes vieram depois a aproveitar-se do momento da “causa das mulheres” para calar uma poderosa voz crítica. Ou que outros intuitos terá tido esse momento. Quem se lembrou de constituir, e como, o “colectivo das vítimas”? Conhecidas as conclusões da Comissão Independente, que não falava de vítimas nem de agressores, apenas de “denunciantes” e “denunciados”, logo surgiram as cartas do “colectivo”. Na segunda, assinada pela advogada brasileira das “vítimas”, dizia-se claramente que o trabalho de apuramento da “culpa” não tinha sido feito e que teriam de ser elas, as “vítimas”, a assumir tal tarefa. É isso textualmente o que diz também Élida Lauris na entrevista que deu ao canal NOW em Novembro passado. Curioso, entre muitas outras coisas, que uma das “vítimas”, Eva Garcia Chueca, fale de “micro abusos”, evidentemente porque não tem nada de que se queixe, pelo contrário, como prova a documentação publicada.

A verdade é que as pichagens foram feitas por duas jovens sem qualquer ligação ao CES: A. F. e S. C. Ambas estavam, no entanto, ligadas à Assembleia Feminista de Coimbra e à República Feminista Rosa Luxemburgo, onde era na altura personalidade dominante a estudante, hoje investigadora, do CES, Gabriela Rocha, ao lado de outras mulheres estudantes do CES. Em 25 de Novembro de 2017, a Assembleia Feminista promoveu uma “Marcha pelo Fim das Violências contra as Mulheres de Coimbra”, subintitulada “Todas juntas contra as violências institucionais”. Registar “institucionais”, que remetia, e bem, para o famoso caso da decisão do Tribunal da Relação, em que um juiz justificou “a agressão cruel de um marido sobre a esposa sob o fundamento arcaico e patriarcal da defesa moral contra o adultério”, mas que aponta já outras intencionalidades, pois que este caso vem a ser associado pelas pichagens ao que supostamente se passava no CES. A “Chamada para a participação na Marcha” terminava com o anúncio de um convívio e um jantar “Benefit Vegan na República Feminista Rosa Luxemburgo”, com a indicação da hora e local de concentração e com o “Contato para imprensa: Gabriela Rocha – 933723836 /grafochamg@gmail.com”.

Foi logo a seguir à Marcha que começaram as pichagens. Dá que pensar que duas jovens, uma delas menor de idade, sem nada saberem do CES nem do seu Director, se dirigissem ao edifício do CES, a altas horas da noite, de mochilas cheias de latas de spray às costas, para conspurcarem obscenamente as paredes da instituição. Donde veio a ideia? Quem as encorajou? Sabemos, pelo testemunho de uma mulher, anteriormente ligada à Assembleia Feminista e que dela se afastou desgostosa com o que lá ia acontecendo, e que pede para ficar no anonimato, que as pichagens tiveram origem aí mesmo, na Assembleia Feminista. Em vez de centro de acolhimento para vítimas de violência machista, diz ela, a Assembleia Feminista de Coimbra tornara-se num espaço de “caça às bruxas”: uma suposta justiça feminista que envolvia fazer “justiça” a homens de quem mulheres da Assembleia por qualquer razão se tinham desafectado”.

Não há como não pensar na “Causa das Mulheres”. Na sua recente e vasta autobiografia, Margaret Atwood tem muito a dizer sobre a “Causa das Mulheres” (Book of Lives: A Memoir of Sorts, 2025). Leia-se o que ela escreve sobre o caso de Stephen Galoway, um premiado romancista canadiano e professor de escrita criativa na Universidade de British Columbia, em dado momento acusado de assédio sexual por uma ex-aluna, com quem ele tinha tido de facto um relacionamento consensual, e que se vê de repente acusado por inúmeras mulheres.

Quando algumas pessoas começam a perceber a falsidade das acusações, contrariando o princípio do #MeToo de que “mulheres não mentem”, imediatamente surge um movimento a exigir a Galoway que se considere culpado, em prol da “Causa das Mulheres”. Atwood, que se apressa a lembrar que é tão falso dizer que “mulheres não mentem” como “mulheres sempre mentem”, refere que Galoway, certamente por determinados traços da sua personalidade, nem sequer era muito querido de muita gente, incluindo ela própria. Mas isso não a impediu de assinar uma carta dirigida à Universidade de British Columbia, protestando contra a suspensão da presunção de inocência e exigindo uma tomada de posição séria e justa. O que veio a acontecer.

Cabe perguntar: que re-infantilização das mulheres é esta que insiste que mulheres adultas, inteligentes, cultas, experientes, livres e verdadeiramente privilegiadas não entendem que estão a ser assediadas, como alegam as “vítimas” e como têm sugerido entre nós alguns comentadores em jornais de referência? Como se decidem elas a contribuir para a destruição de um ser humano que, até um dado momento, elas dizem muito admirar e a quem muito devem? E como não percebem elas que a sua atitude prejudica a apreciação dos muitos casos de real violência contra as mulheres que continuam a envergonhar-nos? Quantas mulheres foram assassinadas por ódio misógino em Portugal em 2025? E quem se lembra do filósofo da linguagem, John Searle, que já só depois de morto Berkeley reabilitou?

 

 

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